RASTROS DE ÓDIO

 

            Uma procura sôfrega e interminável de um tio. Sua sobrinha fora raptada pelos índios Comanches, que mataram seus irmãos e pais, num ataque covarde. A busca do tio que parece infinda, em virtude de seus percalços, retrata simbolicamente, a sofrida história humana, com seus ventos fortes, frios rangentes, calores desconfortantes, pelejas e obstáculos continuamente enfrentados. Isso tudo representa a guerra e os ódios da vida.

 Os eventos do filme acontecem no Oeste selvagem americano (no Texas), da segunda metade do séc. XIX, e são comandados por Ethan Edwards (John Wayne), um amargo veterano do exército confederado. Ethan volta da guerra, e chega na casa da família do irmão; é congratulado e recebido com alvoroço. No dia seguinte recebem a visita do xerife/reverendo da cidade, com sua trupe, anunciando um ataque à fazenda de um deles (perigo iminente), por selvagens índios. Ethan sai e coordena uma busca. Os índios atacam a casa do seu irmão. A família é brutalmente morta; a sobrinha mais nova é seqüestrada.

            Aí começam as procuras do filme (The Searchers, do título original): à sobrinha e um sentido àquilo tudo. E são essas buscas que marcam o filme. Com um magnífico cenário - a atmosfera tocante do Monnument Valley -, a fotografia do filme se revela estupenda: é a pungente vida do homem solitário, representado na figura colossal de John Wayne. Os obstáculos no caminho do herói são os entraves da vida. A busca é por um sentido na vida, dificilmente encontrado. O Oeste representa a crueza da existência.

            O filme é mais que isso. Seu enredo explicita as lutas e seus (ou falta de) sentidos; e os preconceitos; e a aspereza amarga que é a convivência humana. Ethan odeia os índios; os índios odeiam os brancos. Assim mesmo, aparentemente sem sentido. O filme expõe as intransigências, o tempo todo. A sobrinha que é seqüestrada, e que passa a viver com os índios, deixa de ser branca, para Ethan. Nesse momento, então, a procura passa a ser para matá-la. É o companheiro de Ethan (um índio adotado pela família do irmão, que Ethan custa a aceitar ao seu lado) quem controla os impulsos assassinos do tio vingativo...

            Eis, assim, outro tema recorrente desse filme de John Ford: a vingança. Aqui o título em português serve muito bem: são os rastros movidos por ódios de vingança que conduzem os passos do veterano e amargo herói. Mas vingança não só pela morte da família e rapto da sobrinha; é vingança pela própria guerra americana e pelo impedimento da conquista plena pelos brancos. Mas existe vingança também dos índios, pela tomada de suas terras pelos brancos conquistadores. A vida é um eterno confronto vingativo.

            A atmosfera do filme é de desbravamento; de conquista. Os pólos opostos, com ensejos conflitantes se odeiam. Os rituais de domínio são macabros. Os índios escalpelam os brancos dominados; esses atiram nos índios. Em tudo, acima de tudo, vêm os ódios, os desentendimentos. E não adianta um suntuoso cenário: os inimigos não enxergam - não se enxergam. A beleza da natureza não comove os instintos assassinos. Todos são cruentos nas guerras. A vida é bruta; os homens são seres insensíveis, por isso solitários e rudes.

            Essa é a mensagem do filme, e que fica exposta na cena final. A sobrinha volta para casa, resgatada e “perdoada” pelo tio. O companheiro índio de Ethan reencontra a namorada, que já estava cansando de esperá-lo; todos entram para a casa, no desfrute da aparente felicidade. A câmara fica dentro da casa, mostrando uma réstia do cenário externo, através da porta aberta. O herói John Wayne não entra na casa. Ele sai pela tangente; solitário, sem entusiasmo. É um retrato cáustico da vida: no fim nada resta; só solidão e percalços; a felicidade não durará muito. Nada resta a fazer, senão acabrunhar-se!

           

KILL BILL 2

 

Melhor que o primeiro, muito melhor. Sensacional. Assim é “Kill Bill 2”, o filme. Um banho de citações de arte pop, de quadrinhos ao faroeste de Sérgio Leone; de filmes de Kung Fu, ao fantástico universo musical de Quentin Tarantino. As influências do diretor estão esparramadas no filme, embora ele não apareça fisicamente nos filmes, mesmo sendo ator (ao contrário de Hitchcock, por exemplo, que sempre aparecia, discretamente, mesmo não sendo ator). Mas sempre se auto-refere, mesmo que, às vezes, discretamente.

 O filme não é uma continuação do primeiro filme. É o complemento. É o filme. Sua segunda parte preenche as lacunas, completa a história, explica tudo, direitinho. Isso num saboroso e corrosivo humor (e com as inesgotáveis violências e verborragias). É o melhor filme de Tarantino, depois de “Pulp Fiction” - que continha o sabor da quase novidade.

A gracinha Uma Thurman está uma beleza! Sensacional! O canastrão David Carradine é o John Travolta da vez: o diretor resgata e a loira atriz conduz com muito talento. No filme, tudo é engraçado e inacreditável, e nada parece estar fora do lugar. É ilógico, mas não é inverossímil (ou seria o contrário).

Quentin Tarantino é uma espécie de Pedro Almodóvar do cinema atual, mas que é, ao mesmo tempo, tão diferente, que fica muito difícil compará-los. Mas assim mesmo arrisco, para explicar minha tese: ambos são estetas da arte como condutora da vida, mas de uma arte pop, descartável, brega - mas digna e original. Os dois diferentes diretores - reverentes incorrigíveis do desprezado pela alta cultura - têm o poder de transformar essa arte marginal em alta cultura. Mas mais que tudo isso: ambos têm a nobre capacidade de levar isso tudo com graça – inclusive nos momentos de homenagens diversas. O universo desbragado e desavergonhadamente pop dos diretores os colocam em posição destacada no cenário cinematográfico. E que é mais interessante é que ambos têm em seus encalços um universo também desbragado e desavergonhado de seguidores.

Mas voltando ao “Kill Bill 2”. A história da protagonista ganha um sentido lógico, nas ilógicas cenas do filme. Sua saga incansável é acompanhada e explicada em capítulos, como um romance. Muitas vezes os capítulos existem para explicar capítulos anteriores. Nesse filme, como em “Pulp Fiction”, há o recurso do retorno no tempo, no meio da história, para explicar (ou dar uma verossimilhança) passagens anteriores, que, se não ficaram confusas, ficaram aparentemente vagas na primeira parte. Os capítulos dão substância à história, sem serem pedagógicos. Aliás, nada em Tarantino é pedagógico, embora seja tudo explicado. O diretor é um obcecado pela explicação, mas à sua maneira.

Assim “Kill Bill” é mais um capítulo de Tarantino para contar-nos sua vida e a vida do cinema (se é que são coisas indissociáveis!) e suas influências várias, como as músicas, os livros, os personagens, etc. O filme é um jogo de mestre: são vários modos de fazer cinema, dentro de só filme, mas que não virou bagunça, nada disso. Não se parece com a salada pretensiosamente séria de “Matrix”, que cita tudo para não dizer nada. A cultura pop “diz” o diretor, em suas abundantes citações, é a cultura sem cultura própria, que tudo copia; cópias de cópias. É tudo um universo de intercalações extremadas, que constroem uma linguagem, mesmo sem parecer querer isso (existe uma passagem que um mestre diz algo assim para a discípula: “você veio aqui para aperfeiçoar sua arte marcial ou para aprender lingüística?”). É claro que Tarantino não é o maioral (seus filmes parecem querer dizer isso, ou quase isso, que ninguém é tudo), mas seu cinema é absolutamente fascinante. “Kill Bill 2” não é tudo, mas é melhor que isso: é sensacional!

[ ver mensagens anteriores ]

O que é isto?