CLOSER – PERTO DEMAIS.
O amor mostrado como praticado, ou seja, como um jogo entre machos. Então, não existe amor - o que existe é uma constante disputa. Assim, não importa o amor perdido; vale mais saber como se perdeu esse amor, por que, e por quem? O amor fica desencantado, e vira uma disputa entre homens. Dessa forma, não se lamenta por um amor que se esvai, mas lamenta-se a ida desse amor para os braços de outro, pois isso representa uma derrota.
As relações amorosas são diferentes, nos prismas masculinos e femininos. Sei; isso é tão velho quanto sofrer por amor. Mas em “Closer – Perto Demais”, do bom (e velho) Mike Nichols, isso é escancaradamente mostrado. Dan e Larry disputam mulheres, mais que as ame. Eles casam-se com Alice e Anna, respectivamente. Mas Dan mantém um caso com Anna. Larry, que ama Anna, sabe que ela não o ama; mas não sofre muito. Ele sofre é quando sabe da vida adúltera da esposa, e com Dan: sente-se um perdedor. E Dan não ama Alice, mas não consegue separar-se dela, mesmo amando Anna. Alice fora uma conquista vitoriosa. Eles se conheceram numa situação insólita, num acidente que ela sofrera. Eles eram muito diferentes; o processo da conquista fora aparentemente árduo. Então, seria uma pena a perda desse amor (desse êxito!), mesmo sem existir amor por parte dele.
Existe o amor então? Não. Existe o jogo. O amor sempre acaba e a solidão prevalece (sempre existirão derrotas), mesmo quando não existe separação. E na maioria das vezes não existe separação – embora exista sempre solidão. Uma coisa não invalida a outra; e regras (da vida e do jogo) são difíceis de serem anuladas. Isso fica evidente no final do filme: Dan e Alice se separam, e cada um segue seu rumo. Anna e Larry retornam. Mas o rosto de Anna (Julia Roberts), na penumbra da noite, explicita uma solidão inexorável.
Outra coisa: os constantes rompimentos e retornos dos casais – seus vaivens – não são mostrados. Os amores não são apresentados como construções: são mostrados apenas como resultados – como ficaram as relações. Ora, o amor é, na sua essência, a construção de uma relação, em fases diferentes. O amor não é resultado final de nada – é o processo ocorrendo, num presente permanente. Assim, é como se o diretor quisesse mesmo demonstrar que amor não existe. Ou os amores apresentados no filme. Aliás, as competições dos marmanjos também evidenciam que o que importa é o resultado, como foi – ou como será. Então seria um não-amor; a prevalência do passado e do futuro.
No filme - como no amor - tudo é raso e falso: Dan é aspirante a escritor de romances, mas escreve obituários para jornais; Anna é fotógrafa de sucesso, mas é infeliz retratando rostos desconhecidos, e tristes; Larry é médico, mas desgostoso como seu ofício; Alice é stripper, mostra o corpo, simula prazeres e perversões, mas não pode transar com os “clientes”. E é garçonete para disfarçar sua verdadeira profissão. Ah! E nem é Alice!
E as mulheres nestes jogos e disputas? Elas também entram e aceitam as regras. Anna não consegue desvencilhar-se de Larry, seu marido não amado e hábil jogador; ele lhe dá um xeque-mate! Alice não consegue deixar de amar Dan, seu marido que não a ama. Aqui é a primazia das aparências (dos blefes). Os jogos ficam ocultos. Mas, quando tudo fica exposto, quando Dan sabe que Alice transou com Larry, não faz mais sentido o jogo para ela. As regras foram violadas; e ela abandona a partida (separa-se de Dan).
E existem os peixes nos aquários, expostos para visitações públicas. Ora, esses vertebrados aquáticos, sempre nadando em cardumes, se acasalando, mas sempre tão visivelmente solitários, aparentando seres permanentemente derrotados – como nas expressões melancólicas de Clive Owen, Jude Law, Julia Roberts e Natalie Portman.
Luiz D. Maia – Historiador/Escritor – E-mail: luizhist@ig.com.br
UMA NOITE AMERICANA
“Uma Noite Americana”, de François Truffaut, é o melhor filme entre todos os que se propuseram a homenagear o cinema, a partir de seus próprios enredos. E olha que muitos conseguiram isso, e foram generosos com os que gostam dessa arte! Mas esse é um soberbo filme e uma ode à sétima arte, a partir das dificuldades de se rodar uma película.
A obra é mais que metalinguagem. Mais do que o chavão: vida-que-imita-a-arte. É o cinema como meio de compreensão da vida. Aliás, mais que isso também, além disso. O filme amesquinha as vidas. Os atores e os personagens envolvidos nessa arte, de um filme se realizando (ai, como é o nome... “Paloma...” Esqueci.), são pequenos, ante a grandeza da arte que fazem. E não no sentido de modéstia. É que a vida é precária e difícil mesmo, para todos. Isso o diretor do filme sendo feito diz, para o frívolo protagonista do seu filme.
Falando em diretor... O do filme é o próprio Truffaut, que se interpreta. E ele, em off, narra as dificuldades de se fazer o filme (uma confissão de Truffaut?); de se fazer filmes. São muitos os problemas a resolver, desde detalhes simplórios, até desavenças do seu elenco. Um diretor tem de ser um pouco de tudo: psicólogo, marceneiro, juiz, conselheiro, economista, contador... E, sobrando tempo, ser também diretor de filme.
A história do filme sendo rodado é um típico dramalhão: pai-que-se-apaixona-por-namorada-do-filho-e-é-correspondido; filho-se-vinga-do-pai-traidor-lhe-matando. E haja cenas rodando, e repetições! E figurantes! E outras cenas difíceis e custosas, por causa das crises criativas de divas - umas fracassadas, outras debilitadas emocionalmente; chiliques de astros mimados; falta de verbas; teimosias diversas: até um gato recusara a alimentar-se de leite, em uma cena, mesmo tendo ficado dois dias sem alimentar-se. É mole?
E, além de todas as vicissitudes, ainda havia a figura de produtor no encalço da equipe de produção: marcando os passos do atores e fustigando o diretor, o tempo todo.
E as cenas das vidas particulares do atores? Essas “passavam” pelos estúdios – ou eram os estúdios que as “faziam”? E essas vidas eram vagas, sem explicações sobre os motivos dos comportamentos. As vidas são desprovidas de sentidos, ante a protuberância do cinema. Um exemplo: o velho astro morre, em fins das filmagens, e isso é pouco narrado – e nada mostrado. Como o filme não pode parar, segue o filme; mas com dublê.
O envolvimento do diretor, nas filmagens, era muito intenso, mesmo com as intempéries – ou por causa delas. Ele tinha pesadelos, que eram continuações das filmagens (as falas das gravações povoavam esses pesadelos). Mas um sonho era constante: ele caminhava, ainda menino, pela noite parisiense, até chegar a um cinema fechado e roubar cartazes do filme “Cidadão Kane”, de Orson Welles, o mais sintomático filme de todos os tempos! Eis a homenagem de Truffaut materializada no maior dos filmes! Outra homenagem (reverência!): numa cena o diretor recebe livros sobre os métodos de trabalho dos geniais Buñuel, Godard, Hitchcock, Rossellini, Bresson... Em tempo: “Noite Americana”, o título, se refere a uma cena noturna (o escuro do cinema?), filmada durante o dia (a vida concreta?). Além de remeter à majestosa escola americana de fazer cinema.
Os filmes são invenções que buscam remissões às existências opacas. Eis a lógica, a magia e o ofício de Truffaut. E existe outra coisa no filme que serve-nos para análises: a decadência dos astros. Suas vidas perdem todo sentido, quando perdem a fama, num ciclo perverso e previsível. Mas paremos, pois a homenagem de Truffaut à sua arte é para ser vista, e conservada na mente; mais que analisada; mesmo porque, toda análise será curta, ante a grandeza da obra – como curta e vã é a vida ante a eternidade do cinema! É isso.
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