Luiz Maia

Historiador escritor.

 


BLADE RUNNER

 

            Harrison Ford, o herói dos anos oitenta, vive nesse filme de Ridley Scott - produzido em 1982 -, um caçador de andróides contrariado com seu ofício. Seu personagem (um policial angustiado), e o cenário noir do filme, remetem-nos aos tipos criados por outro herói do cinema americano: Humphrey Borgart. Já a paisagem urbana do filme - decadentemente futurista (o ano é 2020) -, remete-nos a “Metrópolis” de Fritz Lang.  Tudo é sombrio, desalentado e triste, agravado ainda por uma chuvinha fina e renitente.

            A cidade é Los Angeles de cenário futurista, onde ficaram as escórias tumultuadas, com sua babel de linguagens confusas, trazidas pelos diversos imigrantes residentes e miseráveis. Suas ruas ficaram abarrotadas de gentes, congestionando o trânsito. Esse se desviou para os ares, em carros flutuantes.Em tudo reina a escuridão, diminuída apenas pelos flashes dos anúncios luminosos, ou pelos esparsos raios de luz em refletores errantes.

            É nessa cidade caótica que o blade runner vivido por Ford se imbrica a procura de quatro replicantes quase perfeitos, que fugiram de suas condições serviçais, e de cobaias em missões especiais. E ele vai eliminando-os, mas vai também se entristecendo cada vez mais. E existe ainda uma quinta replicante: Raquel. O blade runner se apaixonará por ela - e a incitará a se apaixonar por ele. A tristeza do herói se converterá, então, em angústia, diante da impossibilidade do amor de Raquel, por ter ela uma existência imposta e restrita.

            O filme é um alento à condição humana. Os andróides servem como metáforas das condições diversas vividas pelos homens. A vida curta deles (somente quatro anos), representa a finitude de nossa existência e a luta inglória que travamos para superar isso.

            Os andróides também se revoltam contra a brevidade de suas vida; àquele que os criou não pode lhe dar mais tempo de vida. O velho tema da revolta da criatura contra o criador aparece no filme. Isso remetem-nos as nossas revoltas, metamorfoseadas em nossas incessantes buscas de modos de “esticar” nossas existências: seja construindo casas e prédios, e riquezas. Ou criando filhos. Ou mesmo fazendo exercício ou plásticas cirúrgicas.

            No fim de tudo ficam muitas mensagens. O apego à vida é a principal. Mas existe também a vulnerabilidade do homem ante uma condição adversa. Era para tudo ser muito diferente do que é... Mas fica também outra mensagem: o apego à vida (de qualquer vida) dos não humanos serve de exemplo para os humanos. Isso fica claro quando, no final do filme, o replicante salva o caçador, preservando sua vida – a vida acima de tudo.

            Mas é o paradoxo que dá sentido a vida – e ao filme. E nesse sentido o filme é otimista, contrariando seu cenário e seu enredo. A decisão do herói Harrison Ford, de fugir com a amada poupada, contrariando os prognósticos desalentadores, evidencia isso. A incerteza do tempo de vida é o que proporciona um certo fulgor a existência. Nisso, talvez, os homens se superam em relação aos replicantes. Esses têm o tempo marcado de vida.

            Assim, no fundo a grande questão não é a brevidade da vida, mas sua previsibilidade inexorável. Então aqui, por fim, o predomínio humano se explica: sabemos que morreremos, mas não sabemos quando. Isso nos incentiva a construir e dominar o mundo, enquanto o nosso fenecimento não acontece, gerando outro motor de sustentação da espécie nossa: a esperança. As datas certas, implacáveis (como dos andróides), extirpam esse sentimento. No fundo, bem no fundo, cada ser humano é movido pela esperança de que com ele pode ser diferente. Nossa morte, sempre esperamos, não acontecerá hoje. Quem sabe amanhã também não? Ah! Existe também a nossa singular capacidade de amar!

           

           

JORNADA DA ALMA

Para Lídia.

            Existe um filme; existe um enredo. Tudo são formas de conexão com a vida – com nossas vidas. Isso eu aprendi: o bom filme é aquele que se aproxima de nossa realidade. Essa é uma legítima forma de se relacionar com o cinema (e com outras artes também). Mas existem filmes que nos questionam por outras coisas, que não apenas pelo seu enredo.

            “Jornada da Alma”, de Roberto Faenza, é um desses. O filme narra um caso de um amor arrebatador: de Sabina Spielrein, por seu psicanalista Carl Gustav Jung (ele mesmo, o grande Jung!), no início do séc. XX. Isso é contado através do diário de Sabina, que fora encontrado por uma moça francesa, que ficara fascinada pela biografia da jovem judia. Ela perscruta a história de sua heroína, refazendo-a para um trabalho acadêmico, para (e com) um historiador da Universidade de Glasgow. Mas eles têm visões diferentes acerca da história da apaixonada Sabina (morta em uma mesquita por soldados nazistas): a moça ficara absorta pela corrosiva paixão de Sabina pelo grande psicanalista; já o historiador tem uma visão mais profissional, sem se envolver emocionalmente com a sofrida história.

            E Sabina sofre mesmo. O amor fora rompido: Jung era muito dedicado à profissão e não se envolveria com sua ex-paciente (embora ele tenha se envolvido com ela, logo após a penosa terapia). Além disso, o psicanalista discípulo de Freud, tinha uma família, com esposa e filho. Ele não se disporia a largar tudo por uma aventura, mesmo amando.

            Sabina, então, volta para a Rússia – casada com outro -, e formada em psiquiatria. Ela participa da Revolução Russa de 1917, sempre anotando as coisas em seu diário e se correspondendo com Jung. Ela funda uma escola infantil, com uma pedagogia libertária, aos moldes do seu aprendizado com Jung. Esse permanece em Viena, recebendo muitos louros, mas amargurado pela paixão abortada por meras convenções sociais. Opa, uma contradição em sua conduta! Essa é destoante do que apregoava sua libertária psicanálise.

            Os anos de chumbo do governo de Stálin chegam. Em nome dos ideais socialistas, o governo persegue todos os que têm ânimos mais livres (“A Liberdade é um conceito tão importante que precisa ser vigiada”, já dizia Stálin); e Sabina, então, sofre pelas suas publicações e pelo seu libertário modelo pedagógico. Ora, aqui outra contradição: o socialismo não promulgava a liberdade?  E a teoria marxista desvirtuada pelos soviéticos?

            E, em paralelo, a história da moça obcecada por Sabina, com sua história com o historiador de Glasgow. Por que esperamos que haja um caso entre eles? Não sei, é sempre assim nos filmes (e na realidade). E ela sofre, pois isso não acontece. No caso de Sabina com Jung, até acontece, mas sem continuidade. As mulheres, mais abnegadas no amor, sofrem com a frieza dos homens. Nos casos do filme, friezas transvertidas de dedicações profissionais – ou paixões masculinas, mas pelos estudos. Os homens são muito teóricos!

            Essa é a história, que não queria ter narrado, pois agora os espaços para reflexões das outras coisas que os filmes nos questionam, além de seu enredo, ficaram exíguos. Mas vamos lá: por que as expressões dos rostos dos personagens antigos são mais pesadas (e mais tristes) do que dos personagens atuais? Acredito que as representações antigas são mais forçadas mesmo! O passado é uma realidade mais conceitual, mais distante do que o presente. Isso força cargas maiores de simulações (às vezes exageros caricaturais), gerando esses “pesos” nos semblantes. No presente, acredito, as coisas são mais próximas e mais “reais” - não precisando, assim, de muita força representativa para se fazer entender. É isso.

Luiz Divino Maia – Historiador/Escritor/Professor – E-mail: luizhist@ig.com.br

 

 

 

 

 

DEZ

 

            De Abbas Kiarostami, “Dez” é um filme que se passa no interior de um carro em movimento - uma câmara parada e muitas idéias lançadas. O cenário é Teerã, cidade com um trânsito intenso. O enredo mostra uma mulher divorciada (e casada de novo), às voltas com esse trânsito - e com seu filho pentelho e morrinhento. O tema do machismo iraniano se sobrepõe a tudo (o filho é um machista em construção). Mas o filme não é só isso...

            Outro tema é força do carro, como provocador de comportamentos (incivis predominantemente). Em qualquer lugar “civilizado” do mundo é no carro que as pessoas falam, por terem tempo. Uma segunda casa, onde se tagarela para organizar a vida – e grita-se para expurgar os estresses. As coisas acontecem nas nossas vidas, e as rotinas estropiam nossos ânimos e mentes, e é dentro dos automóveis que pensamos e refletimos sobre isso.

            O banco de passageiro serve como divã: um meio de exposição de carências e fragilidades, num mundo que muito exige de todos. Existe o motorista. Esse pode ouvir, já que não está ocupado consigo mesmo. Ele fica na postura de inquiridor de tudo e das coisas à sua volta. Essas, como não podem ser contempladas na labuta diária (fora do carro), são cotizadas e mesuradas quando “chegam” para dentro desse veículo motorizado.

            Isso é “Dez”, dez fragmentos da vida de uma mulher avançada para os padrões do Irã. E ela sofre com sua realidade, confrontante com a moralidade de seu meio... Disso, nós ficamos sabendo, mas sua história não nos é mostrada. É contada, através das pirraças do filho. É ele quem lhe expõe (e a nós), de forma rude, os valores tacanhos da sociedade em que vivem. Ele a acusa de não ser mãe, e não ser como “deveria”: obediente ao marido (seu verdadeiro pai), e totalmente entregue aos seus caprichos, de filho que quer ser mimado.

            Ora, como dói fazer escolhas, optar por caminhos novos e enfrentar o conformismo! Como é azucrinante dirigir, em um trânsito selvagem, quando os ânimos se alteram, e as paciências se esvaem. Como é difícil descobrir a cabeça quase por completo e expor-se!

            Outros personagens entram no carro: a senhora que vai ao mausoléu, para orar três vezes ao dia para Deus, que nada lhe concede. Aqui é uma crítica do diretor à irracionalidade da fé (que não move montanhas). A moça triste, com um noivado incerto, que, quando abandonada, despoja-se do cabelo, símbolo de beleza (moldura do rosto) e do batismo. Outra crítica: a aderência a um compromisso do noivado. Ou a inoperância de um objetivo social imposto (o casamento). Isso tudo não tem sentido e nunca trará felicidade. E a aceitação disso é alienante: a moça ao ser desprovida desses sonhos, se desencanta.

            E teve outra passageira: uma prostituta. Essa, assim como a mulher crente, não teve o rosto mostrado; só as falas – e muitas. Sua loquacidade desestruturara a protagonista e a deixara estupefata, pois destilara, de forma franca, todas as falsidades sociais: do casamento e do amor. A prostituta era uma privilegiada, podia acompanhar todas as sórdidas mentiras que os homens inventam para manter casamentos falsos. E o sexo para ela não era nada. Era uma forma de ganhar a vida; quando quisesse sentir prazer, sentia.

            Aqui ficaram evidentes alguns resquícios de romantismo burguês na mente da protagonista: o moralismo, ante seu assombro pelo discurso da prostituta; e ciúmes, pelo comportamento do ex-marido, que segundo o filho, assistia, à noite, filmes pornográficos.

            O filme é isso tudo: a vida avançada de uma mulher.  Mas nada é mostrado dos personagens que a compõe: o ex e o atual marido, a mãe, o ambiente de trabalho... Tudo é ocultado, para ganhar sentido e ficar muito claro, mas dentro do carro. Esse, de fetiche da classe média capitalista, embrenhou-se (e de forma intensa), na sociedade iraniana.

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