NINGUÉM ESCREVE AO CORONEL
A espera do Coronel por uma carta do governo, referente sua aposentadoria, pelos préstimos no Exército colombiano, ao qual fora um dedicado servidor. Essa espera parece infinda: por cinqüenta anos. Isso aparenta uma obstinação (uma teimosia) nunca arrefecida, mesmo com a penúria rondando sua casa. O que finda, nisso tudo, é a paciência da esposa.
A esposa reclama. Sua saúde está débil e o marido espera, sempre paciente. Como se pudesse fazer outra coisa na vida! E ela clama pela ação do esposo. Ora, isso vai contra a natureza do Coronel. E o que também lhe aporrinha: existe um galo na casa, que precisa ser insaciavelmente alimentado, em tempos de grassa penúria doméstica, pois dentro de alguns meses (que nunca chegam) acontecerá uma rinha, e o galo, então, tem estar fortemente alimentado, para ganhar a briga. O bicho alimenta-se na desproporção dos seres da família.
E existe... Ou melhor, existia o filho que morrera durante uma sublevação ao governo, no meio de uma briga de galo. O galo, então, é mais que um galo; é quase uma entidade simbólica: representante de uma causa do filho perdido – ou o próprio filho. Eis o motivo do apego a esse galináceo – ao menos por parte do Coronel. Mas, não se pode esquecer que o galo é também um investimento, pois sua vitória (que parece certa) proporcionará a redenção financeira da pequena família. Além disso, o Coronel acumulara muitos empréstimos, conseguidos pela promessa de quitação no dia do grande triunfo do galo. Todos confiam nisso! Realmente, sem dúvida, a vitória parece certa...
Mas o tempo passa. O grande dia da rinha nunca chega; como também nunca chega a carta do governo. Só resta a disposição do “bens” da casa. E tudo é vendido para pagar as dívidas do cotidiano. Mas esse tudo é muito pouco nesse ambiente pobre e canhestro; e sabemos que as coisas já usadas não têm muito valor - ao menos para quem as compra.
A vida corre modorrenta na cidade, como em todas pequenas cidades dos romances de Gabriel Garcia Márquez (como a Macondo de “Cem Anos de Solidão”, citada nesse romance) com seus calores caribenhos, e suas sestas frouxas e desalentadoras. Nesse cenário, todos na cidade sabem dos agravos doméstico do homem. Em “Ninguém Escreve ao Coronel”, tudo conspira contra o herói: a carta redentora do governo nunca chega; a penúria familiar se agrava, a ponto de não existir mais nada que se possa vender; a esposa antes apenas adoentada, agora está muito enfezada com seu marido; a rinha triunfante também nunca chega, em desproporção à volúpia alimentar do galo. Um cenário quente e de estupor para o Coronel-herói do escritor colombiano Nobel de Literatura.
Mas o aparente palerma Coronel não se resigna e não muda seus planos. Onde a esposa enxerga apatia, o autor colombiano pinta obstinação, pois mesmo nesse cenário desalentador, existe um projeto de vida: o filho deve ser “vingado” com a vitória do galo. E a chama esperançosa de ainda conquistar seus direitos mantém-se. Pois o Coronel ainda crê que a carta do governo chegará, contra todas as evidências. É isso que importa.
Em tudo fica algo sempre presente nos romances de Márquez: a morte na espreita. Na doença da esposa, na partida do filho, na espera do Coronel, e na vida modorrenta da pequena cidade (que parece um cemitério de seres de vivos). Contra isso não se pode lutar.
Então o Coronel luta contra o que pode – e não é inexorável: pela sua vida sofrida e por seus “sonhos”, mesmo que para isso tenha de alimentar-se de merda, como respondera à esposa no final do livro. Uns chamarão de teimosia, outros de brutalidade. Mas pode ser também visto como romantismo obstinado, contra tudo – e agora contra todos -, inclusive contra a mulher. É a espera, na sua autêntica variante: esperança; mesmo que acre. É isso.
Má Educação
O título “Má Educação” não tem um sentido de desobediência ou falta de educação escolar, ele diz respeito a uma educação incorreta; ou modo de vida incorreto (e atual), que nos faz mentir sempre. Afinal, educado é aquele que busca se relacionar com coerência e veracidade. O filme fala de mentirosos, o tempo todo. Por isso a figura do travesti é tão presente no filme: todos buscam se travestir, para ocultar suas devassidões recônditas.
Nesse filme de Pedro Almodóvar, as versões e invenções (e perversões!) diversas é que dão os sentidos. Nada é verdade: Juan se apresenta como sendo Ignácio para o diretor de cinema Henrique; mas ele não quer ser Ignácio, quer ser Angel (não suporta o peso da mentira?). Os travestis que surgem no início do filme não existem, são frutos do roteiro que chega às mãos de Henrique através de Juan/Ignácio/Angel. Assim como o padre Manolo e o outro padre (que usavam batinas, com as saias dos travestis) que aparecem, são atores, também frutos do mesmo roteiro. Então, não existem. O padre Manolo existe, mas sua real feição aparecerá apenas no final do filme, para embaralhar mais a história, quando apresenta sua versão (mentira!?) da história. O verdadeiro Ignácio é um travesti (a verdade está na mentira?) decadente e insensível, distante do menino Ignácio do início do filme.
É um filme de travestimentos que surgem, e que fazem desembocar novas histórias: o rapaz que aparece na vida do diretor de cinema, se apresentando como um antigo colega, faz a vida de Henrique se transformar, a ponto dele não contestar essa mentira evidente. O garoto que cresce e se transforma, vira um travesti viciado em drogas, que tenta extorquir do padre muito dinheiro, para não delatar os abusos que sofrera na escola católica. O padre que surge, não mais como padre cheio de culpas, mas casado e com filho, que se apaixona por Juan; corrompe-se por amor a ponto de tramar, com seu amado, a morte de Ignácio.
O padre Manolo era professor de literatura. Um ofício de interpretar invenções de histórias, de inverdades. Ele se transforma em editor de livros, uma forma de investir em histórias, que são quase sempre ficcionais. Henrique é diretor de cinema – como Almodóvar -, um método de criar outras histórias. Juan é ator de teatro (será?), uma arte de interpretar (fingir!) mais outras histórias. E Ignácio é travesti, uma forma de interpretar, de inventar uma outra realidade. Isso tudo é má educação: invenções encontradas pelos homens para esconderem suas reais e obscuras condições. Isso é Pedro Almodóvar!
Mas é também um filme que discute “Poder”. E poder é poder de dominar sexualmente. O filme é uma espécie de “As relações Perigosas”, de Choderlos de Laclos, mas de temática gay. Quem tem poder sobre o outro o tem através da dominação sexual. Como no caso do padre que sofreu por ter amado um aluno e se corrompeu (foi dominado) por se apaixonar, na maturidade, por um belo jovem. Os desejados têm poder de dominar os que desejam. A amargura de Ignácio é por ter perdido o viço, não ser mais objeto de desejo, logo perdera o poder de sedução (uma forma de dominar alguém). O padre Manolo, mesmo pressionado por Ignácio, não cede as suas exigências. Não se sente pressionado, por não mais desejá-lo. Ele nunca lhe paga o exigido. Ao contrário: ele inverte a situação, fica criando novos encontros com Ignácio, através das migalhas que lhe envia, para topar com Juan, seu novo objeto de desejo. E Ignácio não percebe... Seu universo de mentiras o cega.
Com um ambiente noir, cheio de suspense, autobiográfico e mordaz, Almodóvar nos conduz a um universo intricado e humano - complexamente humano. Não é um filme gay. É de relacionamentos apaixonados, que para se manterem - ou se concretizarem - usam mentiras e domínios sobre outros, em um mundo que nos ensina dominar e mentir, sempre.
MAR ADENTRO.
Em todo Estado de Direito, em qualquer país republicano do mundo, liberdade deve ser um conceito balizador de tudo. Sei, isso é tão óbvio que parece pleonasmo. Mas na prática, em muitos casos, Estados atravancam direitos, impedindo a liberdade do homem.
Isso serve como preâmbulo, para a análise de “Mar Adentro”, de Alejandro Amenábar. Nesse filme, Ramón Sampedro (Javier Bardem) é um tetraplégico, vitimado num acidental mergulho (quebrou o pescoço dentro do mar) e que vive dependente na casa do irmão - há 28 anos - no interior da Coruña, na Espanha. Ramón é lúcido para escrever(?) poemas, e inteligente para questionar a sua vida. Mas impotente a ponto de não conseguir fazer até as coisas comezinhas do cotidiano, como comer, virar-se na cama e vestir-se...
Essa lucidez de Ramón o faz considerar sua existência como uma não-vida, carente de sentido. Pois, ele só acredita na vida como modo de exercitar a plena liberdade, e poder fazer o que se quer, por si mesmo. Isso ele não pode ter; então, não se considera livre, e muito menos vivo. E ele também não pode amar, pois isso pressupõe (ou culmina, não importa) contatos físicos plenos. E ele nada sente no corpo – só no rosto. Ele abjura contrapesos: afagos, como resquícios de amor; ou cadeiras de rodas, como modo de andar.
A vida, para Ramón, é o usufruto das coisas - das coisas abstratas inclusive, como amor e liberdade. Ele não aceita consolos ao infortúnio que o acometeu. Mas não é um revoltado (embora triste), com um sorriso permanente no rosto. Um sorriso de lucidez.
E é aqui que entra a questão do Direito. O lúcido homem quer é o direito de morrer (não é de matar) com dignidade, pois ele não consegue nem se suicidar. É uma opção escolhida para não mais prejudicar outras pessoas, que se dedicam a ele - o tempo todo e por muito o tempo. E dedicação infrutífera, um caso perdido. E é uma ironia, pois ele não vive mais de acordo com a concepção republicana de vida, que é usufruto das aptidões.
O Estado democrático espanhol não parece ser republicano, pois os entraves legais para Ramón exercer seu direito de escolha, com convicção, são apegados a valores religiosos (católicos). Ora, valores religiosos, embora respeitáveis, são religiosos; portanto parciais; meros conceitos morais. E o Estado de Direito deve se apegar a valores sociais, ensejos sociais de todos, não apenas dos religiosos. Mas isso é uma longa história...
No filme, uma entidade de direitos humanos entra em ação judicial, em favor à causa de Ramón. E uma advogada é contratada. Ela é aceita por Ramón, por sofrer de uma doença degenerativa, o que poderia sensibilizá-la no seu caso. Mas o que acontece é que sua doença se agrava e a impede de continuar na causa. E ela ainda se apaixona por Ramón. Mas ele não se deixa envolver, pois não pode amar plenamente.
Ela lhe promete que, se a causa não for ganha, ajudar-lhe-ia na boa morte, e iria suicidar. A causa não é ganha – e ela não pode lhe ajudar, nem se matar. A advogada perde a lucidez e fica desmemoriada. Mas Ramón mantém-se lúcido, o suficiente para aceitar outra proposta, de uma sofrida radialista que se apaixonara por ele. E essa demonstra seu grande amor por Ramón, ajudando-o na morte. E Ramón fora morto longe de casa - e em hotel da cidade. Mas não fora assassinato, como o irmão sempre temera, pois isso pressuporia contrariedade, e vítima. Não houve isso, e sim aceitação - e não houve vítima!
Ramón, ainda fala, para organizar a morte - e criticar a obtusidade do Estado espanhol. E morre; e faz o que o mar deveria ter feito. E ficam questões: como um Estado pode atravancar algo que já deveria ter acontecido 28 anos atrás? Isso evitaria muitos desgostos. A função do Estado não é dar amparo social aos sofridos, e apaziguar as dores?
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