SIDEWAYS – ENTRE UMAS E OUTRAS

 

Dois amigos quarentões vagando pela região da Santa Bárbara, na Califórnia - numa belíssima região vinícola -, em busca de confortos para suas vidas medíocres: um irá casar em breve; o outro quer esquecer um divórcio recente. São dois outsiders: o primeiro é Jack (o ótimo Thomas Haden Church), ator de televisão canastrão e fracassado (ator que só faz TV nos EUA é ator incompleto); além de inseguro acerca do casamento que se aproxima – e que sempre fora adiado. O outro é Miles (o-mais-que-ótimo Paul Giamatti). Ele é um atabalhoado e enfastiado professor ginasial, que é também escritor, mas que nunca tem os livros publicados; e é recém divorciado. Ah! É também um enófilo contumaz.

 É a velha história Road Movie, como rito de passagem? É. É o reflexo cinematográfico de uma simbologia - matéria-prima da indústria do turismo - que promete viagens como formas enobrecedoras de vidas vácuas e deprimidas? É sim; tudo isso. E daí?  Nessa viagem muitas coisas acontecem mesmo. E é disso que eles necessitavam!

 Miles é um sujeito misantropo; ele se faz de enólogo arrogante para se distanciar das pessoas. É o saber como forma de se diferenciar dos outros (ser superior) e como forma de compensar os infortúnios da vida. Ele só aceita os outros na medida que demonstrem conhecimentos acerca de vinhos. A exceção é com Jack, seu amigo. Mas, nossos amigos, só são amigos por suportarem serem atazanados por nossos superiores conhecimentos. Além disso, é intrínseca à condição de amigo ser complacente com nossas idiossincrasias.

            E Jack? Ora, esse só quer saber de farra; quer aproveitar seus últimos momentos de homem solteiro. Ele usa seus “talentos” de canastrão (e seus resquícios de charme) para flertar e conquistar mulheres californianas, sofrendo todos os riscos (físicos inclusive) advindos disso. Para ele o tempo é hoje; amanhã ele estará casado – e compromissado.

            Assim, o filme narra uma história da mediocridade de seres na maturidade, num país obcecado pela vitória – e pela glorificação da juventude. E o vinho como metáfora da vida, com seu tempo certo para degustação (e a forma certa também). Os personagens parecem vinhos fora do tempo; em franca decadência. Miles, antes de enófilo, ou enólogo, é um beberrão frustrado; passado, então, da medida. Jack, canhestro ator, de antigas propagandas televisivas (sabe aquelas que ficam no inconsciente coletivo por marcaram nossa infância?), parece ter também passado seu tempo. Nada contra, mas seu indiscriminado frenesi às conquistas e aventuras sexuais, lembra-nos um adolescente, em voluptuosidade desbragada.

            Mas os personagens têm suas redenções, a partir da viagem as regiões vinícolas. Miles encontra o amor, na pessoa certa da bela garçonete também amante de vinhos. Jack descobre que ama a noiva de verdade, a partir de suas aventuras sexuais na Califórnia. É isso. No fundo tudo o que interessa é o amor (ou sexo), o resto são metáforas disso, ou acomodações à vida. Quando falamos de vinho, ou fazemos uma viagem, ou outra coisa qualquer, queremos falar é da vida. E vida é sexo. Ou talvez tudo sejam metáforas para não falarmos – ou pensarmos – na morte. Mas mudemos de assunto, não falemos disso!

            No casamento do amigo, Jack descobre que não ama mais a ex-esposa, ao vê-la, com o novo marido. Eis uma ocasião especial e gloriosa que merece uma celebração. Ele não vai à festa do amigo; faz sua “festa”: a degustação do rótulo perfeito, sempre guardado para um momento sublime. Ele saboreia o Château Cheval Blanc, um divino rubro gaulês da região de Bordeaux, safra 61 acompanhado de um... hambúrguer. Não importa, o que vale, acima de tudo, para um enófilo, é o prazer. Como na vida (no sexo, entendido?): não importa as condições, desde que a primazia seja a do prazer - e o esquecimento da morte.

SIDEWAYS – ENTRE UMAS E OUTRAS

 

Dois amigos quarentões vagando pela região da Santa Bárbara, na Califórnia - numa belíssima região vinícola -, em busca de confortos para suas vidas medíocres: um irá casar em breve; o outro quer esquecer um divórcio recente. São dois outsiders: o primeiro é Jack (o ótimo Thomas Haden Church), ator de televisão canastrão e fracassado (ator que só faz TV nos EUA é ator incompleto); além de inseguro acerca do casamento que se aproxima – e que sempre fora adiado. O outro é Miles (o-mais-que-ótimo Paul Giamatti). Ele é um atabalhoado e enfastiado professor ginasial, que é também escritor, mas que nunca tem os livros publicados; e é recém divorciado. Ah! É também um enófilo contumaz.

 É a velha história Road Movie, como rito de passagem? É. É o reflexo cinematográfico de uma simbologia - matéria-prima da indústria do turismo - que promete viagens como formas enobrecedoras de vidas vácuas e deprimidas? É sim; tudo isso. E daí?  Nessa viagem muitas coisas acontecem mesmo. E é disso que eles necessitavam!

 Miles é um sujeito misantropo; ele se faz de enólogo arrogante para se distanciar das pessoas. É o saber como forma de se diferenciar dos outros (ser superior) e como forma de compensar os infortúnios da vida. Ele só aceita os outros na medida que demonstrem conhecimentos acerca de vinhos. A exceção é com Jack, seu amigo. Mas, nossos amigos, só são amigos por suportarem serem atazanados por nossos superiores conhecimentos. Além disso, é intrínseca à condição de amigo ser complacente com nossas idiossincrasias.

            E Jack? Ora, esse só quer saber de farra; quer aproveitar seus últimos momentos de homem solteiro. Ele usa seus “talentos” de canastrão (e seus resquícios de charme) para flertar e conquistar mulheres californianas, sofrendo todos os riscos (físicos inclusive) advindos disso. Para ele o tempo é hoje; amanhã ele estará casado – e compromissado.

            Assim, o filme narra uma história da mediocridade de seres na maturidade, num país obcecado pela vitória – e pela glorificação da juventude. E o vinho como metáfora da vida, com seu tempo certo para degustação (e a forma certa também). Os personagens parecem vinhos fora do tempo; em franca decadência. Miles, antes de enófilo, ou enólogo, é um beberrão frustrado; passado, então, da medida. Jack, canhestro ator, de antigas propagandas televisivas (sabe aquelas que ficam no inconsciente coletivo por marcaram nossa infância?), parece ter também passado seu tempo. Nada contra, mas seu indiscriminado frenesi às conquistas e aventuras sexuais, lembra-nos um adolescente, em voluptuosidade desbragada.

            Mas os personagens têm suas redenções, a partir da viagem as regiões vinícolas. Miles encontra o amor, na pessoa certa da bela garçonete também amante de vinhos. Jack descobre que ama a noiva de verdade, a partir de suas aventuras sexuais na Califórnia. É isso. No fundo tudo o que interessa é o amor (ou sexo), o resto são metáforas disso, ou acomodações à vida. Quando falamos de vinho, ou fazemos uma viagem, ou outra coisa qualquer, queremos falar é da vida. E vida é sexo. Ou talvez tudo sejam metáforas para não falarmos – ou pensarmos – na morte. Mas mudemos de assunto, não falemos disso!

            No casamento do amigo, Jack descobre que não ama mais a ex-esposa, ao vê-la, com o novo marido. Eis uma ocasião especial e gloriosa que merece uma celebração. Ele não vai à festa do amigo; faz sua “festa”: a degustação do rótulo perfeito, sempre guardado para um momento sublime. Ele saboreia o Château Cheval Blanc, um divino rubro gaulês da região de Bordeaux, safra 61 acompanhado de um... hambúrguer. Não importa, o que vale, acima de tudo, para um enófilo, é o prazer. Como na vida (no sexo, entendido?): não importa as condições, desde que a primazia seja a do prazer - e o esquecimento da morte.

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