ALVES & CIA.
Eça de Queirós, sempre ele. Nesse pequeno livro – em tamanho -, seus temas prediletos estão presentes, mas, como sempre, de forma original a tudo que já escrevera. E esses são muitos, mas o baluarte é a crítica aos comportamentos da burguesia portuguesa, em fins do século XIX, com valores pragmáticos escorando tudo, e todas as outras coisas.
Nesse livro, Eça conta-nos uma historieta: de Godofredo Alves. Ele sofre muito por encontrar sua esposa Ludovina, a adorável Lulu, nos braços de seu amigo Machado.O sofrimento é maior por encontrar a consorte na sala de sua própria casa, sentada no seu sofá amarelo (suas propriedades: a mulher; e a sua residência e seus móveis). E mais grave ainda, Machado é mais que amigo: é seu sócio na firma comercial “Alves & Cia”. E ser sócio é mais importante que ser amigo, na lógica burguesa exposta por Eça de Queirós.
Esse choque atarraca a alma do pobre homem. Esse é o grande sentimento do livro. Ele, atabalhoadamente, expulsa a esposa de casa, mandando-a de volta à casa do pai. Pois não é que isso se torna um bom negócio para o velho Neto, pai da infiel mulher? O homem ferido na alma contemplará o sogro com uma faustosa renda para o sustento e necessária viagem da desditosa. Nesse universo criticado por Eça tudo são negócios...
E são mesmo. Na sua perturbação inicial, Godofredo propôs uma espécie de sorteio entre ele e o sócio, quem perder, suicida-se. Ora, Machado acha isso ridículo, como realmente era. Nesses tempos, de frios e calculáveis negócios, isso não pegaria bem. Logo depois é acordado um duelo, aos moldes antigos, mas com arma, ao invés de espadas; com testemunhas amigas dos dois lados. Essas se reúnem, para os acordos do confronto. Isso também é cômico, nesses tempos não românticos. E assim, as vozes sensatas – e pragmáticas - vencem: não haverá duelo. O adultério não fora corroborado, a despeito das cartas de amor de Ludovina encontradas por Godofredo, aparentes provas. Não se justificaria tal confronto; muitas seriam as perdas até para o vencedor (a sociedade era lucrativa). Ademais, o adultério revelou-se abstinente. Era melhor continuar como estava, acordando entre eles somente que Machado fizesse uma viagem de uns meses, aparentemente a negócios, para obstruir os comentários mais malévolos.
Godofredo não sabia pegar em armas. Essa decisão, então, fora um alívio para ele, que, no fundo ainda amava muito a esposa – e a sua vida burguesa controlada pela mulher, com seus utensílios limpos e decoração organizada. E também, no fundo mesmo, Godofredo admirava Machado. E esse estava consternado com tudo o que acontecera!
E com o tempo tudo ficou nos conformes. Machado retornou da viagem, a amizade voltou (a ruptura com a sociedade jamais!), até mais sólida. A esposa fora procurada pelo atribulado marido, regressando e colocando a casa em ordem. Essa estava em maus tratos pela insolência das empregadas, seguras por saberem-se estáveis e em tácito acordo com o patrão. Ele não as iria demitir, por terem ciência do adultério domiciliar. Esse tema inclusive, com conotações mais complexas, estará em “O Primo Basílio”, do mesmo autor.
No mundo burguês o que reina, acima de tudo, são os pragmatismos e as permutas. É isso que evita os prejuízos financeiros. A permanência das agruras entre os sócios seria danosa à empresa, pois os sócios eram mutuamente dependentes – tinham competências complementares. A separação do casal também geraria avarias diversas: a pensão cara ao sogro e a manutenção da casa mal cuidada. Além disso, para bons negócios (aprendemos no séc. XX), é mister para aquele que vende ter uma boa imagem. E um homem separado da esposa e inimigo do próprio sócio, seria, naquele tempo, um péssimo marketing comercial.
Necessidades Inventadas.
Necessidades! Existe isso?
Ora, claro que não. O que existe são invenções de necessidades, de imperativos que acoplam toda a nossa vida e moldam nossos conceitos.
São valores e julgamentos (e produtos representando-os) inseridos em nossos cotidianos que, antes de serem essenciais, são formas de direcionar as nossas vidas – ou são criações de desejos e compromissos, que, essencialmente, não temos, e nem precisamos.
Assim, antes de propagar a imprecibilidade de certos penduricalhos tecnológicos, precisamos entender que eles são essenciais, mas, eminentemente, ao sistema capitalista. Esse cria “muletas” para nos sustentar (e “muletas” cada vez mais belas e sofisticadas), e nós as compramos. Mas nós não precisávamos delas...
E mais, depois de compradas ficamos dependentes até o ponto de não conseguirmos mais andar sem elas. E o que pior: temos de comprar outras, pois as antes compradas são rapidamente transformadas em coisas obsoletas. Somos, então, seres não mais bípedes e muito precisados – renovadamente precisados.
E no fundo, bem no fundo, não precisamos de nada disso. E até podemos viver muito bem sem nada disso. Mas os inventores de necessidade nunca nos alertam para isso!
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