ANTES DO PÔR-DO-SOL.
À moda de Eric Rohmer, Richard Linklater expõe como a vida é, através de diálogos, e mais diálogos, entre os íntimos, mas desconhecidos, Celine (Julie Delpy) e Jesse (Ethan Hawke). Eles dão ritmo ao filme, com suas falas saborosas e contínuas. E são essas incessantes falas que apresentam as imagens. Ah! As imagens! São elas que nos conduzem e nos mostram Paris como ela é. A vida como ela é, através do jeito da cidade, seus confins e becos, que os cartões postais, “vendedores” da cidade para os turistas, não mostram...
Esse encontro é um reencontro. Em 1995 eles se conheceram na estação ferroviária de Viena, com destinos diferentes: Celine para França (ela é francesa) e Jesse para EUA (ele é americano). Mas ficaram juntos por uma noite - com muitas conversas também e andanças pela Europa. Isso fora narrado em “Antes do Amanhecer”, também de Linklater.
O reencontro é “Antes do Pôr-do-Sol”, depois de nove anos. No encontro anterior fora combinado um encontro, seis meses depois. Parece que eles não foram a esse encontro. Então Jesse escreveu um livro, um best seller, narrando isso tudo. Ele está em Paris para o lançamento da obra, e ela vai vê-lo, discretamente, enquanto ele fala com jornalistas. Ele a vê, apressa a entrevista e vai encontrá-la. Seu objetivo parece que fora alcançado...
E é aqui que o filme começa. Ele tem horário marcado (no pôr-do-sol) para viajar em seu périplo de divulgação do livro, coisa necessária e chata, que todo escritor se presta para ampliação de leitores. E ele parece não querer isso: queria apenas uma leitora e essa já havia lido o livro (e por duas vezes), conforme fica sabendo por Celine, sua leitora querida.
O filme assim vai afunilando sentimentos à medida que o tempo passa - e o horário do vôo de Jesse se aproxima. No início eles aparentam descomprometer-se o tempo todo com o antigo encontro, revendo-o de forma espirituosa. Mas, à medida do tempo e da fluência das falas, as dores e amarguras vão surgindo. Não há brigas – até por que eles não são um casal! Não há lamentos, culpas ou cobranças. E esse é o grande dilema da relação. Tudo poderia ser diferente (poderia ser ruim ou não), e eles não tentaram. Isso é culpa de ambos? Não e sim: é culpa da juventude que tinham; de acreditarem na ação do acaso. Ora, isso quase sempre não acontece. E olha que eles chegaram a morar “perto” - em Nova York entre 1998 e 1999 -, no período de mestrado de Celine. Ela é cientista social.
Mas disse que “Antes do Pôr-do-Sol” remete-nos a Eric Rohmer. E é verdade, pela abundância da falas que o conduz. Mas não será possível reproduzi-las. Seria como contar o mistério do filme para quem não o assistiu. Apenas ressalto que tudo é exposto e dito com ênfase (e é isso que difere esse do filme anterior), mas deixa lacunas (as coisas sempre e apenas parecem que são, ou que foram, de determinada forma). Os sentimentos – ou os medos de expô-los – aparentam travar o que está no âmago dos personagens E ademais, se pouco foi revelado quando eram mais jovens e com menos compromissos, não seria agora - nas auroras das vidas - mais compromissados que estavam (ele é casado e tem filho; ela tem um namorado), que eles iriam se expor? Uma pena.
Mas o filme não é para lamentos. E tem um final magnífico: ela é deixada em casa; ele entra para ouvir uma música da moça (ela também registra o encontro do passado). Ele sempre postergando a viagem... Claro! O motorista que espere! Entram na casa da moça, nos fundos de uma vila simpaticíssima (Ai, que vontade de largar tudo para morar nesse lugar!). Ele põe um CD de Nina Simone; ela imita-a ao som de Just in Time; fazendo biquinho e tudo mais. Nossa! Quanta sensualidade de Julie Delpy! E o sol está se pondo; e Ethan Hawke parecendo (é sempre assim) mandar a viagem e o motorista às favas...
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